Pular para o conteúdo

Roteiros gastronômicos pelas cidades históricas em 2026

  • por

Viajar pelo Brasil é, entre outras coisas, viajar pelos séculos. Cada cidade histórica tem uma camada de tempo diferente — e a comida é o lugar onde essa história fica mais viva, mais imediata, mais possível de ser sentida de verdade.

Content1

Aqui estão cinco cidades históricas com roteiros gastronômicos que valem a viagem por si só.

Ouro Preto — Minas Gerais

Pedras coloniais, igrejas barrocas, casarões que parecem não ter mudado em duzentos anos — e uma cozinha que também carrega esse peso histórico com orgulho.

O tutu à mineira é o prato que define Ouro Preto pra quem come com atenção: feijão preto espessado com farinha, toucinho, linguiça, couve-manteiga — servido com angu cremoso. É a comida que alimentou a época do ouro e que os restaurantes da cidade continuam fazendo com o mesmo cuidado de sempre.

Content2

As empadas de forno com recheios que vão do clássico frango com ovo até combinações com queijo e nozes. O doce de leite — não o industrializado, o artesanal de alambique que você compra direto do produtor na feira. E a cachaça de alambique mineira, que em Ouro Preto tem uma tradição que precede o próprio conceito de destilado sofisticado.

Diamantina — Minas Gerais

Diamantina é menos visitada que Ouro Preto mas não é menos extraordinária — nem arquitetonicamente nem gastronomicamente.

O angu de milho com tutu de feijão e couve refogada é a base da alimentação da região há gerações, e entender como algo tão simples pode ser tão satisfatório quando bem feito é um aprendizado gastronômico valioso.

O queijo artesanal da região do Vale do Jequitinhonha — produzido com leite de ovelha, maturado em caves naturais — é uma das joias menos conhecidas da queijaria brasileira. Com um bom vinho tinto num final de tarde frio de Diamantina, é uma experiência que rivaliza com qualquer plateau de fromages europeu.

As rapaduras, os doces de festa junina que aqui são do cotidiano, completam o repertório de uma cidade que guarda sabores que o Brasil urbano está perdendo.

Paraty — Rio de Janeiro

Paraty tem uma personalidade gastronômica única porque está na interseção de dois mundos: a tradição caiçara da costa fluminense e a produção cachaçeira das serras ao redor.

O barreado — carne bovina cozida lentamente em panela de barro — chegou trazido do Sul mas foi incorporado pela culinária local com adaptações que o tornaram diferente do original. A moqueca de peixe, feita com peixe fresco do litoral, leite de coco e dendê, é outra obrigação. O camarão fresco em qualquer preparação é garantia de qualidade num lugar com acesso direto ao mar.

Mas o que diferencia Paraty gastronomicamente é a cachacinha. A FeCachaCha, festival anual de cachaça artesanal da cidade, transformou o entorno de Paraty num dos maiores polos de produção de cachaça artesanal de qualidade do Brasil. Visitar um alambique e entender o processo é parte obrigatória do roteiro gastronômico.

Olinda — Pernambuco

Olinda tem ladeiras, casarões coloridos e uma energia cultural que não para — e uma cozinha nordestina que é das mais complexas e menos compreendidas do Brasil.

O cozido de rabada — rabo, língua, miúdos cozidos lentamente com molho de tomate, pimentão e coentro, servido com angu e farofa de dendê — é um prato que exige disposição e tempo. É o tipo de comida que um restaurante não pode ter pressa pra fazer e o comensal não pode ter pressa pra comer.

O vatapá — pasta cremosa de pão, castanha de caju, camarão e azeite de dendê — servido com arroz de forno e pirão de peixe, é uma combinação de texturas e sabores que resume muito do que a culinária afrobrasileira do Nordeste tem a oferecer.

O bolo de rolo, de origem pernambucana, com camadas finíssimas de massa e goiabada enroladas com precisão — é um dos doces mais tecnicamente exigentes da doçaria brasileira.

São Luís — Maranhão

São Luís é a cidade das três culturas — portuguesa, africana, indígena — e a gastronomia é onde essa mistura aparece de forma mais visceral e mais deliciosa.

O tacacá é o prato que melhor representa a herança indígena: goma de mandioca, camarão seco, tucupi (o caldo fermentado da mandioca), jambu (a erva que anestesia levemente a língua) — servido fervendo numa cuia. É uma experiência sensorial completa que você não esquece.

O arroz de forno maranhense — com frango, ovo, leite de coco, assado até criar crosta dourada — é uma forma de preparar o arroz que existia antes do arroz branco virar padrão nacional e que merecia muito mais reconhecimento do que tem.

Os bolos de goma, as cocadas em diferentes versões, os doces feitos com ingredientes que no resto do Brasil são raros — são a sobremesa perfeita pra uma cidade que tem mais história culinária do que a maioria das pessoas imagina.

O que todas essas cidades têm em comum

Cada uma guarda uma versão da culinária brasileira que a modernização da alimentação está ameaçando. Técnicas que levam horas. Ingredientes que só existem na região. Receitas transmitidas sem ser escritas. Saberes que vivem nas mãos de cozinheiras que aprenderam vendo fazer, não lendo receita.

Viajar por essas cidades com o estômago aberto e a curiosidade honesta é uma das formas mais diretas de entender o Brasil de verdade — não o Brasil do fast food e do delivery, mas o que sobrou do tempo em que comer era ato de cultura antes de ser ato de consumo. 🍽️

Esse conteúdo foi útil? Compartilha com quem ama viajar e descobrir a culinária dos lugares que visita.